LENDAS E CONTOS

O FANTASMA DO ITAGUÁ

Por Roberto Fortes

Todas as noites, um pescador saía de sua casa e analisava as águas do Mar Pequeno para ver se estavam propícias à pesca. Em certa ocasião, à meia-noite, o pescador estava sentado na calçada de uma fábrica de manjuba, que ficava bem em frente à maré. De repente, apareceu, não se sabe de onde, um homem vestido de preto e com cartola, que perguntou ao pescador se ele já ouvira falar do Itaguá. O pescador respondeu que conhecia bem o local, que era um conjunto de ruínas de uma antiga fazenda de arroz e que hoje ninguém morava lá. Então, o misterioso homem de preto disse-lhe que ele fora o proprietário do Itaguá e que lá vivera com a sua família há mais de cem anos. O pescador ficou perplexo. Porém, antes que pudesse falar alguma coisa, olhou em volta e se deu conta de que o homem de preto desaparecera.


ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. E-mail: robertofortes@uol.com.br Blogger: https://robertofortes.blogspot.com/
(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).



A DAMA DO ITAGUÁ

Por Roberto Fortes

Certa noite, um professor foi caminhar nas proximidades do Itaguá. Pelas tantas, surgiu uma dama vestida de branco, muito bela e formosa, que não disse uma palavra sequer, nem fez qualquer gesto. Espantado, o professor, sem querer saber quem era a bela dama, debandou em louca disparada... A Dama do Itaguá já foi avistada várias vezes. Alguns garantem que ela é a esposa do fantasma do Itaguá. Um casal romântico e fantasmagórico!



ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. E-mail: robertofortes@uol.com.br Blogger: https://robertofortes.blogspot.com/
(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).



FONTE DA SAUDADE

Por Roberto Fortes

Num dos contrafortes do Morro da Espia, existia um pequeno regato de águas cristalinas, cuja nascente tinha origem no coração da montanha. Ao lado desse regato havia uma pequena choupana de palha na qual habitavam o valente guerreiro carijó Turuçuçaba (“valor e grandeza”) e sua única filha, a encantadora Porangaba (“beleza e formosura”). A meiga menina era tudo para o destemido guerreiro e valia mais do que a sua própria vida.


Porém, num certo dia, o bravo guerreiro foi chamado para a guerra. Antes de partir, o guerreiro deixou com a filha seu arco-e-flecha e seu tacape para que ela pudesse defender sua honra em caso de alguém importuná-la. E, assim, partiu para o combate. Porangaba passava as manhãs sentada numa pedra à beira do regato e quedava-se a suspirar, tamanha era a saudade que sentia do pai.


Passa uma lua, mais outra e muitas outras. E nada de Turuçuçaba retomar. Todos os dias Porangaba subia à montanha e, de cima das árvores, ficava a observar a longa planície na esperança de avistar o pai.


E assim se passaram os dias e Porangaba cada vez mais se entristecia pela imensa saudade que sentia do pai. Até que um belo dia ouviu troar pelos ares o eco característico de uma inúbia (trombeta de guerra). Porangaba não pode conter a emoção. Tomou do arco e das flechas e correu pelo caminho afora. A uma certa distância, conseguiu avistar o pai, que vinha ao seu encontro. Abraçaram-se emocionados e juraram que nunca mais se separariam.


Noutro dia, Porangaba levou o pai até a margem do regato e disse-lhe que, daquele dia em diante, a fonte chamar-se-ia Ig coara xipiaca aúb, que quer dizer: “Fonte da Saudade”.


Essa fonte contaria aos pósteros a imensa saudade que Porangaba sentiu pelo seu amado pai.


ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. E-mail: robertofortes@uol.com.br Blogger: https://robertofortes.blogspot.com/
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A CARRUAGEM DO LARGO DA MATRIZ

Por Roberto Fortes

Ao tempo em que não existia iluminação elétrica na cidade, quando as casas e largos eram iluminados pela luz bruxuleante dos lampiões a querosene, contam que era frequente ouvirem-se ruídos como um arrastar de correntes ou coisa parecida. Ninguém se atrevia a abrir as janelas para ver do que se tratava.


Segundo contam, em noites de Lua Cheia, uma vistosa carruagem puxada por quatro fogosos cavalos brancos saía do Porto do Ribeira, e, passando pela margem do Valo Grande, entrava triunfal no Largo da Matriz, de onde se dirigia a Porcina, ruínas de uma antiga imponente fazenda de arroz.


Contam que uma família muito rica mandou que fosse levado, na calada da noite, em sua carruagem, um grande tacho de moedas de ouro para ser escondido em seu terreno na fazenda Porcina, onde permaneceria oculta até que sua única filha atingisse a maioridade. Não passou muito tempo, uma grave doença matou toda a família do rico fazendeiro, sem que a filha soubesse da grande fortuna a ela destinada.


Garante a tradição que, até poucas décadas atrás, no mesmo horário do carregamento das moedas de ouro, sob a claridade do luar, passava pelo mesmo itinerário uma carruagem como querendo indicar a alguém o caminho até onde está enterrado o ouro e, assim, dar o merecido descanso à alma da infeliz jovem.



ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. E-mail: robertofortes@uol.com.br Blogger: https://robertofortes.blogspot.com/
(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos).

ENCONTRO COM A SERPENTE

Por Gastão Ferreira

Adão vivia no paraíso, ainda não acabara de denominar todas as coisas da criação; acordava com o cantar do galo, lavava o rosto num riacho, comia duas bananas, despertava Eva, e saiam para o primeiro passeio do dia. Essa era a rotina, e o tempo passava.

A vida de Eva era um tédio só; olhar os pássaros, admirar as nuvens, sentir o perfume das flores. Existiam apenas dois exemplares de cada espécie de bicho, e plantas; todo o cuidado era pouco, pois um pequeno descuido e se exterminava uma raça inteira.

Naquela manhã, durante a caminhada matinal, Eva, sem querer querendo arrancou uma pequena flor que vicejava na entrada de uma caverna; deu a maior muvuca! A flor era uma bela e perfumada Astéria, e o mundo nunca mais viu uma Astéria. Adão virou um bicho; - “Não te falei que o Senhor criou apenas dois exemplares de cada espécie de animal, planta, inseto, árvore, flor! Caramba, Eva! Adeus, linda Astéria.”

Foi uma briguinha à toa. Eva magoada correu para o bosque, e Adão foi pentear um macaco. Bastou um pequeno desentendimento, e Eva arrumou uma senhora confusão.

- “Bom dia, Eva! Algum problema?”, sussurrou uma voz.

- “Quem está aí? Quem está falando comigo? Só Adão e eu falamos! Quem é você? Quem é você?”

- “Calma, menina! Eu sou uma amiga. Eu te conheço, mulher. Estás naqueles dias! Tensão pré menstrual...”

- “Isto nunca aconteceu antes! Estou doente?”

- “Não! Não! Mas vai se acostumando que uma vez por mês será assim.... Posso reverter a situação.”

- “Já sei! Você é uma médica?”

- “Nunquinha! Eu sou a Serpente.”

- “Nossa! A famosa cobra que fala. O que você quer de mim?”

- “Amizade, querida! Você anda muito solitária. Quero apenas te ajudar.... A cura está naquela árvore, bem ali.”

- “Oh, não! A Árvore da Vida. Nem posso chegar perto!”

- “Bobagem, amor! Basta uma mordidinha numa das frutas, e você se transforma numa garota esperta...”

- “Eu não quero ser uma garota esperta...”

- “Você pode ser uma mulher linda e maravilhosa...”

- “Já sou linda e maravilhosa...”

- “Convencida! Nem notou que tem celulite...”

- “Celulite, eu? Não! Não! E não!”

- “Sim! Sim! E sim! A fruta da Árvore da Vida dá um jeito na hora, e além disso vai te deixar muito, mas muito inteligente “

- “Acho que vou provar! Meu sonho é ser mais esperta do que o Adão...”

- “Demorou! Vai lá, guria... Pega uma fruta.”

Eva arrancou uma fruta da árvore, parecia uma maçã, mas não era maçã. Bastou uma mordida e a ficha caiu; - “Que estou fazendo aqui? Que frio! Nossa, estou nua!”, e Adão apareceu; - “Que aconteceu, Eva? Você parece diferente.”

- “Como assim, diferente?”

- “Não sei! Mais sensual, mais gostosa, mais, mais...”

- “Eu comi do fruto proibido!”

- “Oh, não! Comeu do único fruto que não podemos comer, e ainda está viva...”

- “Prova, Adão! Ele é tão gostoso. Só uma mordidinha, e eu deixo você fazer aquilo...”

- “Aquilo, o quê? Nem sei do que estás falando...”

- “Prova e eu te mostro...”

E foi assim que Eva convenceu Adão a provar do fruto do bem e do mal. Adão mordeu o fruto e começou um vendaval, raios, trovões, relâmpagos... Adão abraçou Eva, algo diferente aconteceu, era a primeira vez que Adão sentiu uma coisa estranha, muito exótica, muito prazerosa...

A Serpente saiu de fininho, olhou para Adão e Eva grudadinhos e pensou; - “Eta, lasqueira! Danou-se o paraíso.”, mas esta é outra história.



Gastão Ferreira
(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos),texto retirado da pagina do Facebook de Gastão Ferreira.



RAMIRO, O PESCADOR

Por Gastão Ferreira
Contam as lendas urbanas que Ramiro foi um famoso pescador; caiçara bem apessoado, alegre, generoso, um moço sonhador. Suas tralhas de pesca impecáveis, canoa sempre limpa, conhecia os segredos do lagamar e os melhores pontos de pesca. Algo muito estranho aconteceu à Ramiro.

Apaixonado desde a infância por Andrelina, não tinha olhos para mais ninguém. Casamento marcado, não via a hora de realizar o seu grande sonho; casar e ser feliz.

Numa de suas andanças, ali pelos lados do Morro do Pinheiro, foi visto por Fabíola, a bela feiticeira, filha de Nhá Pedrina; Fabíola a maga que tantos malefícios causou à seus desafetos. O pescador foi um dos poucos viventes que teve contato com a bruxa e sobreviveu para contar a história.

Fabíola fez de tudo para obter a atenção de Ramiro, mas o rapaz jamais se submeteu a seus caprichos, e o amor de Fabíola se transformou em ódio mortal. A bruxa lançou um encanto sobre o jovem pescador; o coração de Ramiro, com o tempo, se tornaria pedra.

A sina de Ramiro mudou; desmanchou o noivado com Andrelina, se afastou dos amigos, passava dias e dias sozinho no manguezal, vendia o seu peixe, mas vivia solitário, parecia que seu coração não tinha mais vida, definhava lentamente.

Os amigos tentaram ajudar, mas nada conseguiram; Andrelina foi a única que jamais desistiu, mas nunca descobriu a causa da estranha mudança de seu amado; o encantamento de Fabíola, a bruxa do Morro do Pinheiro.

Andrelina cuidou de Ramiro até o fim de seus dias; o corpo do moço foi sepultado no cemitério indígena de Ilha Comprida, e quando Andrelina faleceu, a enterraram no mesmo túmulo, e neste dia o encanto foi descoberto.

Entre a morte de Ramiro e a de Andrelina vinte anos se passaram; quando abriram a sepultura do pescador, a única parte inteira de seu corpo era o coração; um coração de pedra. Seu melhor amigo, recolheu o coração, e o escondeu. O tempo passou, a cidade cresceu, mudanças ocorreram. Fabíola se arrependeu do feitiço, e quando um famoso escultor fez a Estátua do Pescador, uma singela homenagem do município aqueles que dedicaram suas vidas à pesca, ela, a feiticeira eternamente jovem, retirou o coração de pedra do seu esconderijo, e o colocou dentro da estátua; nem o escultor sabe disto, mas a Estátua do Pescador possui um coração; o generoso coração de Ramiro, o maior dos pescadores que o lagamar conheceu.

Diz a lenda urbana que depois da meia-noite, quem encosta o ouvido na estátua, escuta um “tum-tum-tum-tum”, é o coração de Ramiro que sonha com os cardumes de tainhas, robalos, paratis e manjubas. Quem tem a sorte de ouvir o coração da Estátua do Pescador, sempre terá uma grande e farta pescaria.

(Iguape, e suas lendas urbanas)



Gastão Ferreira
(Direitos Reservados. O Autor autoriza a transcrição total ou parcial deste texto com a devida citação dos créditos),texto retirado da pagina do Facebook de Gastão Ferreira.

TUCANO DE OURO

Por Roberto Fortes

O Morro do Pogoçá, maciço avistado a quilômetros de distância por sua formação rochosa estranha, desencoraja até o mais audacioso caiçara a escalá-lo. É um dos pontos mais encantados do Vale do Rio Verde, no santuário da Jureia. Contam que é protegido por um bando de mamangavas, abelhas negras que guardam o sopé do maciço.


A cada sete anos, um tucano de ouro abandona o pico Dedo de Deus, através de uma janela natural na rocha, e voa até a Serra dos Itatins, a 30 quilômetros de distância, a uma altura que nenhum outro tucano consegue alcançar.


O vôo do tucano encantado sempre acontece na primavera e quem consegue avistar a bela ave recebe sete anos de felicidade.




ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. E-mail: robertofortes@uol.com.br Blogger: https://robertofortes.blogspot.com/
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CAVALO BRANCO

Por Roberto Fortes

Cavalo Branco É um fogoso cavalo branco que em noites enluaradas é visto a pastar as relvas marginais do Valo Branco, em Iguape. As mães sempre advertem suas filhas para não passarem pelas relvas marginais do Valo Grande porque o Cavalo Branco, ao ver uma moça virgem, faz com que ela caia naquelas águas e depois desaparece com ela.Quando novamente há lua cheia ele volta para buscar outra moça para viver com ele no fundo do Valo Branco. A figura do cavalo aparece em diversas canções brasileiras, sendo as sertanejas o lugar mais comum de ver e ouvir.




ROBERTO FORTES, historiador e jornalista, é licenciado em Letras e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. E-mail: robertofortes@uol.com.br Blogger: https://robertofortes.blogspot.com/
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